SEXUALIDADE E VIDA CONJUGAL
Marco Aurélio
Baggio
Unitermos – Sexualidade. Masculino.
Feminino. Acasalamento. Finalidades do casamento. Cotidiano. Felicidade.
Liberdade.
Resumo
– O autor destaca as características diferenciais do masculino e do feminino.
Descreve nove maldições pelas quais transita o homem. Mostra que o acasalamento
é causado pelo amor
heterossexual. Destaca a incongruência entre o ciclo de pocuso anos da vivência
do amor, contraposta à instituição do casamento, feito para atravessar décadas.
Considera o desgaste originado pelo cotidiano e as desbragadas expectativas de
felicidade dois obstáculos à permanência do vínculo conjugal.
O menino é recebido pela mãe como um complemento fálico dotado de pênis,
que vem confirmar o anseio de potência geratriz de vida da mulher. A ele, desde
o princípio é outorgado um lugar de destaque na subjetividade da mãe,
considerado como um outro, a ser
destacado dela. Como a menina, o menino é um produto da criação geratriz da
corporeidade da mulher-mãe. Como sexo distinto, o menino, contudo, é
aconchegado ao colo como um diferente,
um outro, a um só tempo altamente valorizado e temido. O olhar da mãe
sutilmente expele o petiz em direção aos espaços abertos do mundo.
Inexoravelmente, a mãe envia renitentes mensagens ao filho de que ele é um
outro diferente dela e o desaloja do conforto aconchegante de seus braços,
indicando o mundo como o campo vivencial privilegiado por onde o menino terá de
se inserir.
Assinalado pelo apêndice peniano, que
funciona como seta de intenção, o menino sofrerá a externalização de sua
libido, preferencialmente vertida e investida no trato com os objetos do mundo
exterior.
Sua marca será sempre o trabalho com as mãos, com o
corpo e com as intenções sobre os objetos externos a ele, visando a um desempenho
– muitas vezes, forçado – que redundará na confecção de um produto. Assim,
operar sobre as coisas da natureza, manipular os encolhos do mundo, enfim, o
fazer ativo, será a marca distintiva do masculino.
Criador dessa civilização que aí está, o homem se
surpreende afastado da capacidade de vivenciar o cerne de sua interioridade. Ao
contrário, empenhado em caçar, plantar, germinar, competir, produzir sob
pressão, prever e prover e, sobretudo, vencer a obtusidade da vida, o homem se
flagra comprometido a dar contra de múltiplas tarefas que o deixam esgotado.
Partida por múltiplos interesses, a subjetividade masculina cinde-se aos
pedaços, esquarteja-se. Ele utilizará parte de sua energia libidinal para
manter algum tipo de coalizão entre esses pedaços cindidos do ego. Grande parte
de sua energia agressiva se transformará em trabalho, em garra, persistência e
obstinação na tarefa. Aquilo que sobrar de energia será investido em sublimação
forçada, base e respaldo de alguma sociabilidade civilizada que manifesta.
Assim preparado, o homem pode ir à luta como caçador, guerreiro, aventureiro,
burguês, operário e funcionário. Um belo cavalo de competição, arfante, em
busca de êxito. O êxito é a obtenção de qualquer dessas insígnias tidas como
valiosas o bastante para que o homem possa a elas dedicar sua vida – e sua
morte.
(Seu objetivo
é) Ser
possuidor da verdade, da honestidade, da terra, do deus, do dinheiro, do prestígio, da notoridade,
da admiração de seus pósteros ou de
seus contemporâneos. Detentor do poder.
Do patrimônio.
Afastado cedo do aconchego da mãe, ao homem resta
conceber um nicho de conforto, escavado em sua subjetividade, sob a forma da
concepção de um ideal – ideal do eu – que funcionará como self-objeto-extensão-de-si-próprio, com notáveis funções
acalmadoras e restauradoras da mesmidade.
O preço a pagar não é baixo: o menino desde cedo é
compulsoriamente afastado da transa com sua subjetividade, impedido de se
envolver demasiado com seus devaneios, compelido todo o tempo a afastar-se do
cerne de sua interioridade. Passa a desconhecer certos setimentos nobres, tais
como a ternura, o descanso e a solidariedade. E o sossego.
Toda a promessa de maciez e tranqüilidade fica
colocada lá, distante, no ideal alcançado justamente quando bem concluir todas
as tarefas que incautamente assumiu.
É lá, Persiles, Zersura, no oásis fantástico do
sonho idealizado, que estará colocada a Mulher.
Lugar de promissão futura, repouso do guerreiro,
prêmio almejado após tantas canseiras, a mulher é o repositório esperado de
doçura e de receptividade, de encanto e de repouso. (Está no MPB?)
É quando então, mediante o encontro pleno, ele
poderá dizer, até cantar:
Eu quero te
mostrar E agora
que cheguei
As marcas que ganhei Eu
quero a recompensa
Nas lutas contra o rei Eu quero a prenda imensa
Nas discussões com Deus Dos carinhos teus
(“Sem fantasia”. Chico Buarque.)
Por sua vez, a mulher tem um outro código de barras,
complexo, que dá acesso a sua subjetividade. Ela está cansada de esperar por
ele, batalhando o mundo; está ansiosa por ser descoberta, escolhida e colhida
no jardim da vida. Espera que ele traga novidades, sedas, especiarias e,
atencioso, deposite a seus pés os frutos de sua colheita. Espera, pressurosa,
que ele lhe descortine mundos, que indique e saiba os caminhos. Que a eleja e a
sustente com seu braço forte e seu destemor. Que lhe quebre o encanto com sua
vara mágica e a transforme naquela voluptuosa amante que ela suspeita ser.
Espera que ele seja um guia, um mentor delicado, enérgico, suave, forte, dotado
de uma autoridade sensível e de uma impetuosidade flexível. Enfim, num
cavaleiro devotado à magna façanha de conquistar sua dama. Ela quer ser amada,
acima de todas as outras e acima de tudo. Oferecerá o acesso ao seu delicioso
corpo, estará toda inteira voltada para ele. Cuidará de suas ferramentas, de
seu lar e de sua prole. Dará aquele aconchego e aquela ternura antiga, agora
ainda melhor, sexualizada.
O encontro foi tão gratificante que ambos quiseram
repeti-lo. Reiterado, tornou-se um hábito confortável. Um dia, alguém toma a
iniciativa de propor um vínculo formalizado qualquer.
Acasalam-se.
Podem, então, traçar planos, iluminar os
obscuros do futor com o faro da fidúcia de sua relação. Comprar aquilo, provar
aquiloutro, os filhos, os amigos, as coisas todas a que chamamos um lar... Experimenta-se algo tão bom,
tão mágico, tão arrevesador: é o amor.
O amor é como um raio
galopando em desafio
abre fendas, cobre vales
revolta as águas dos rios.
(“Faltando um pedaço”. Djavan.)
O homem e a mulher, unidos pelo amor
feito um nó na garganta, descobrem-se tão potentes, tão criativos, envolvidos
com a multiplicidade simultânea das coisas todas interessantes. Descobertas e
usufruídas naquela do “só vou se você for”.
O clima idílico que assim se estabelece
é garantia de que ambos fizeram um bom negócio, ao abandonarem suas respectivas
posições esquizóides iniciais e suplantarem seus solicismos (solecismos?)
narcisistas.
Aos poucos, ambos descobrem, com
crescente desconforto, que são seres inapelavelmente diferentes, que raramente
são coincidentes e que nem sequer são complementares. O conforto da matriz de
vinculação recíproca, a ilusão de um
enfim completado pelo acaso da descoberta da outra metade depressa se desfazem.
E somos um
quando
dormimos juntos sonhos separados
que nós não vamos confessar de modo
algum.
(Condenados”. Fátima Guedes)
Tropeçam a cada passo, desencontram-se. A relação se
faz de viés. Ele é funcionário, ela é bailarina. Apesar de tudo, a relação se
faz, o vínculo prossegue.
Ah, meu amor... de discretos pecados
formamos esse ser tão uno,
divisível
parece incrível
que nós tentemos que ele dure
eternamente
nessas metades incompletas
mas
decentes
É assim que, um dia, ambos constatam que seu enlace,
tendo-se tornado um casamento, constitui uma sólida instituição.
O casamento é uma sociedade civil com fins
lucrativos. Celula mater da
acumulação de patrimônio, por excelência. Núcleo de estabilidade necessária
para o desfrute das vantagens sociais instaladas no topo da pirâmide social.
Engenhosa fórmula jurídica que impede eficazmente a
dispersão do patrimônio, ao longo das gerações. Milenar e exitosa forma de
geração e de criação de filhos, jamais suplantada por qualquer outra. Matriz de
confecção da subjetividade triangulada, edipal. O casamento permite cingir essa
célula social, a família, base de apoio e de refência à fabricação desse novo
predador-caçador isolado, o indivíduo.
Então,
tudo está muito bem posto, bem arrumado.
Estamos
listos, diriam nossos irmãos argentinos.
Por
que não trepam bem?
Por
que é que ele anda bebendo um pouquinho demais?
Por que ela está com uns quilinhos a mais?
E as crianças, por que gritam
e brigam tanto?
Um casal tão feliz, eles têm
tudo... umas crianças tão lindas... dizem as “candinhas”.
Por que o mal-estar na vida
conjugal?
Se a gente passa a descrer de mau-olhado, de más
companhias, de espíritos-de-porco e até das artes do diabo, resta imputar o
mal-estar à conjuntura de vida. Como esta é madrasta para quase todos,
comunistamente, não explica lá grandes coisas. A psicanálise nos orientou a
procurar a origem do mal-estar – da angústia – dentro de nós mesmos. Vamos lá? (coloquial –
falta uma ligação)
Podem-se identificar nove maldições que
cumpre o homem.
A primeira delas é universal: vale
tanto para ele como para ela. O cinismo de G. Bernard Shaw é absoluto:
Há duas
tragédias na vida. Uma é não conseguir o anseio do seu coração; a outra é
consegui-lo.
Precisa mais? (coloquial)
Aníbal Machado:
As coisas ardentemente desejadas chegam-nos
frias.
(Parodiando Tomás Antônio Gonzaga: As glórias que vêm tarde vêm frias?)
A teoria das pulsões nos ensina que
elas – pulsões parciais – têm fonte
– a corporeidade; empuxo – força,
intensidade, peremptoriedade; objeto
– qualquer coisa adequada – e finalidade
– o prazer, a descarga, a produção. Do corpo como pulsão, enxertada no aparelho
psíquico, mediante um obscuro processo de psiquização, a pulsão se transforma
em desejo. Este, renitente, insistente, busca, procura, invade, investe,
reveste. O que “pintar”. Está feita a junção, o enlace. Este, o produto final
do circuito. A pulsão, buscando a plenitude do gozo, obtém o prazer, um
algo-a-menos do esperado, decepcionante sempre. Mas muito valioso. O desejo,
exitoso em sua captura do objeto, inevitavelmente irá nele esvair-se de
pressão, de peremptoriedade. Daí, a diminuição das catexias de interesse.
Simples, não?
A
partir disso, o homem estará tntado à sengunda maldição: à de ficar
olhando as saias de quem vive pelas prais coloridas pelo sol.
Loteado pelos múltiplos interesses,
parcializado em seus investimentos, o homem tem dificuldade de concentrar seus
ovos na mesma cesta. Uma regra aceita como boa, em economia, diz bem o
contrário.
Uma vez obtidas as graças da mulher
deusa-perenal, acolhido dadivosamente por ela, amenizada a pressão de seu
desejo, o homem desconcentra-se e se vê a cada instante convidado a cobiçar a
mulher próxima. Ele olha, enquadra; acende a lâmpada de sua concupiscência e
logo a apaga, reprimindo-se. É um balé louco, compulsivo, desgastante. Uma
verdadeira maldição.
Imerso num bom enlace, não é raro o
homem ser surpreendido pela terceira e previsível maldição: ele está
despreparado para usufruir a intimidade a dois. Seu prazo de tolerância às
situações de intimidade é curto. Logo se sente claustrofóbico, inquieto. Busca
um aditivo qualquer, um objeto transicional salvador ou uma desculpa simpática
que lhe permita livrar-se do constrangimento de estar tanto tempo com ela.
Evade-se. Ela, naturalmente, sente-se abandonada.
A quarta maldição masculina é
fisiológica. Sexos diferentes têm fisiologias distintas. A dele é abrupta,
impositiva, imediata. Excitado, de pau duro, ele quer já, agora. Ela, não. É
tergiversa, lenta, vaporosa. Gosta de um clima.
Quer ouvir uns psilones, umas
palavras gentis, vai-se aquecendo toda, aos poucos, em fogo brando. Ele é
pronto, pênis-centrado, impaciente.
Muitos, inseguros de sua hombridade,
desistem logo e tornam-se impotentes. Outros preferem as mulheres fáceis ou as
frígidas que consentem. Uns tantos, desesperados, partem para a forçação de
barra, quase sempre estragando a relação ou a mulher. Outros, mais ardilosos,
tornam-se hábeis indutores do desejo feminino, seduzem-nas e as abandonam. São
os Casanovas, os D. Juans, os conquistadores.
O homem mais experimentado aprende a
participar desse jogo erótico, distribuindo tempos e movimentos, de tal forma
que quem tem dá, quem não tem recebe, e todos ficam satisfeitos.
A quinta maldição é relacional. Ele, de
pau duro, é uma figura ridícula, com aqueles olhinhos de bandido à espreita.
Assim exposto ao controle de qualidade dela, ele se encontra no máximo de
vulnerabilidade narcísica. Qualquer insinuação de desapreço o coloca em
desvantagem, a meio pau. Ele precisa da aceitação, mais, da aprovação, mais
ainda, do entusiasmo dela, para manter-se excitado e em boas condições
operacionais.
A sexta maldição só o acomete a posteriori. Com o tempo, ele
desconfia, depois constata, que o orgasmo dele dura míseros um quinto
(Tirésias, o célebre adivinho cego do ciclo tebano, afirmava um nono) do
orgasmo dela.
A sétima maldição provém da “fofoca”,
quando ele se compara com os amigos galhofeiros que se jactam: “Estou dando
cinco sem tirar”, e ele tem de se consolar com a oração de São Millôr Fernandes
que reza: “Bondoso é o Senhor Deus, que nos dá uma segunda ereção 48 minutos
depois.”
A oitava maldição deriva da inveja de
constatar, às vezes, que ela tem orgasmos múltiplos, quando não subentrantes, enquanto
ele se esfalfa em manter o número de flexões requerido.
Satisfeito, esbaldado, espojado no
folhiço, querendo escapar dos braços dela para os braços de Morfeu, ele repara
que ela está “toda toda”, uma gata manhosa, insinuante, querendo mais, o pós-coito,
o bis-coito. E ele, arreado feito um pneu, sem gás feito um balão apagado.
É a vez de ela se perguntar com
espanto: “- Cadê aquele impetuoso cavaleiro, de lança em riste, se propondo a
levar tudo de roldão no atropelo de sua fúria carnal? Virou isso? Essa coisa
derreada, dormindo ao meu lado?”
O homem como parceiro conjugal terá de
lidar com essas nove maldições e, eventualmente, superá-las, em grande parte.
Com rapidez e adequação. Não é fácil. Primeiro, porque ele não sabe como
fazê-lo. Segundo, porque as tendências das pulsões parciais mais indômitas,
provenientes de seu patrimônio genético, aceitam domesticação até os 35, 40
anos. A partir daí, o que for geneticamente prevalente tende a prevalecer. Não
vai dar mais para segurar.
y y y y
Sabe-se que o cotidiano exerce um
inexorável trabalho de erosão e de desgaste da relação amorosa. Deparando, de
manhã, com as caras amarrotadas, partilhando o mesmo vaso, tendo de espichar o
dinheiro para despesas correntes dentro de um campo de perspectivas diferentes
de preferências e de prioridades, ambos se pegam falando as mesmas coisas,
contando os mesmos casos, fazendo os mesmos raciocínios. Despojam-se dos
segredos, do algo-mais, do mistério. Banalizam-se. Todo dia ela faz sempre
igual... e ele também.
O casamento tem, no dia-a-dia, um de
seus muitos paradoxos. Instituição adequada justamente para enfrentar e
atravessar os muitos dias comuns de décadas sucessivas, o casamento se
ressente, exatamente, desse transcurso monótono.
Outro fator de desgaste deriva da
pretensão, fundamente inscrita no imaginário dos cônjuges, de que o casamento é
garantia segura de que ambos encontrarão a Felicidade.
Ninguém espera ser feliz no Ginásio, correndo a Maratona, trabalhando no Banco
do Brasil ou montando seu negócio. Mas todos supõem lícito esperar receber a
Felicidade pronta, no casamento.
Esse anseio de completude, resto
placentário da situação nirvânica que vivemos no útero, quando éramos feto, nós
o carregamos por toda a nossa vida. E o depositamos, esperançosos, no altar dos
deuses. Estes, espertamente, acolhem nossa demanda e a remetem lá para frente,
ao futuro, à outra vida. Ou então, depositamos nosso anelo de Felicidade na
relação com o parceiro e damos um curto prazo para que ele nos faça feliz. A Felicidade...
ah, quantas bobagens são cometidas enquanto estamos à sua espera...
Em que consiste a Felicidade? Ninguém
sabe. Mas parece lícito supor que algumas coisas, pelo menos, ajudam: um bom
saldo bancário, uma lauta refeição, o conforto da primeira classe, a ausência
de engarrafamento, alguém
que ame mais do que é amado; ter alguém bem importante e bem distante
para se odiar. Uma aparência de 15 anos a menos que o próprio filho também
contribui. Uma bebida honesta, cordial, nas horas certa; o convívio com moças
mais gentis. Também ajuda dispor da boa fortuna,
como mordomo, e ter a saúde em bom estado. Enfim, como sintetiza o ditado
capiau mineiro: dinheiro, mulé e bicho de
pé. Acho que é assim que se poderia contar a história de um sujeito feliz para sempre.
A vida conjugal está marcada, no
Ocidente, pela insurgência do amor. Tem-se, no enamoramento recíproco, a
pré-condição necessária para o acasalamento. O idílio, a atração sexual e a
paixão são componentes desejáveis, habituais. Uma das mais importantes funções
do casamento é, justamente, dar guarida e servir de canyon ao desabrochar da segunda floração da sexualidade humana, a
partir da adolescência e ao longo de toda a vida adulta jovem dos parceiros.
Assim, o amor, com sua covalência
misteriosa, é o grande fator que atrai corpos e mentes diferentes,
interessando-os em uma convivência conflituosa, mas, sem dúvida, enriquecedora.
Acontece, porém, que o amor tem um
ciclo de duração curto, variável de seis meses, dois, três, cinco, sete anos.
Ao cabo desse ciclo, o amor perde sua urgência, torna-se outras coisas, diminui
seu fogo, transforma-se em amizade, consideração, ternura, sexo puro de boa
qualidade, convívio útil e reparador, companheirismo, cumplicidade,
solidariedade, entre outras coisas positivas. Outras vezes, o amor simplesmente
se esgota, naturalmente, como uma pilha usada. (Inserir texto “O amor acaba”?) E, não raramente,
às vezes, azeda, torna-se desamor, com a correspondente coorte de sentimentos e
comportamentos digladiadores correlatos.
O fato é que o amor é o motor inicial do anseio de
acasalamento. Atua como agente concentrador dos investimentos libidinais e dos
interesses dos sujeitos envolvidos. É uma voragem inebriante, envolvente,
quente, que facilita a aproximação das peculiaridades e que encaixa as
diferenças sexuais e pessoais.
O casamento tem um ciclo longo de
duração. É uma sólida instituição de longo curso, criada para atravessar as
décadas e durar, em média, o tempo que medeia entre as bodas de prata e as
bodas de ouro.
Dessa simples constatação, percebe-se
que a extensão temporal do amor – incorporal que faz os corpos se encontrarem e
se mantém justamente pelo encontro desses corpos – contrapõe-se à da
instituição do casamento.
Se o poderio indutor do amor esgota-se
em ciclo de dois, cinco, sete anos, a duração do casamento perdura por 14, 25,
40, 55 anos.
É óbvio que durante um casamento os
parceiros podem sofrer múltiplos enamoramentos. Simultâneos ou sucessivos. Pela
mesma ou por várias pessoas.
Anos do
casamento
O casamento, por suas características
estruturais, de sociedade civil, livremente escolhida, com fins lucrativos,
objetivos patrimoniais, reprodutivos e de convivências, é a matriz adulta
adequada à expansão das possibilidades existenciais dos cônjuges. Mais que
qualquer outra, o casamento permite a vivência do múltiplo simultâneo, dos
interesses e das atividades todas da vida adulta. A marca da instituição do
vínculo conjugal está dada por sua prerrogativa essencialmente transeunte.
Alguém disse que casar-se é adquirir
direitos de posse do corpo do cônjuge e direitos de exclusividade de uso dos
genitais do parceiro.
Pode-se considerar essa como uma
afirmação válida. Ela, porém, é imediatamente contraposta ao samba-canção que
tão bem canta:
Ninguém é de ninguém...
Na vida tudo passa...
Dessa articulação conflituosa, deriva
mais um paradoxo típico do enlace conjugal.
Diz-se, ouve-se, a toda hora, que o
casamento é uma instituição falida.
Não parece, absolutamente. Trata-se de
uma instituição altamente vantajosa e funcional, que, sem dúvida, continuará a
ser escolhida por aqueles seres humanos mais desassombrados, mais maduros ou,
ainda, por aqueles que se deixaram tocar pela flecha do amor.
Os duros anos 90 nos trazem a rápida
desidealização de romantismos e de ilusões cretinas.
Pode-se antever que o mal-estar na vida
conjugal diminuirá à medida que compreendermos e aceitarmos melhor o papel do
amor na relação conjugal e enterndermos seu desdobramento em afetos e em
comportamentos mais consentâneos ao longo curso da vida humana.
Igualmente, cuidar das obrigações e das
imposições inevitáveis do cotidiano, salpicando-o com mel, purpurina, brilho,
novidade e criatividade, é capacitar-se para suplantar mais um paradoxo.
É necessário, pois, abdicar de vez da
ingênua pretensão de que o outro e o casamento trarão felicidade. Aceitar que a
vida conjugal é um amplo cenário bélico-lúdico-relacional, onde estão em jogo
os avatares da existência, são fatores que diminuirão o mal-estar na vida
conjugal.
Certamente contribuiriam para reduzir o
mal-estar conjugal – sua vertente claustrofóbica – a inibição e a superação
interna, em cada cônjuge, da pretensão de posse absoluta sobre o outro.
Essas prerrogativas, caso sejam
transitadas no futuro, podem ampliar o grau de liberdade dos parceiros. Sabe-se
que somente quem dispõe de ampla liberdade pessoal pode eleger contratos e
sutentá-los, convenientemente. Somente quem dispõe de liberdade pode criar e
manter vínculos.
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